saúde mental

Precisamos falar sobre a saúde mental dos cientistas

Muito se espera por uma ação que venha de cima: do governo, da CAPES ou do CNPq. Mas e nós? O que podemos fazer hoje pela saúde mental dos cientistas?


Recentemente, o suicídio de um doutorando da USP foi o sinal de basta para a questão problemática da saúde mental dos cientistas no Brasil. O fato foi noticiado em diversos veículos da mídia e colocado a público. Infelizmente, algumas coisas só recebem a devida atenção quando algo muito grave acontece.

Às vezes, não é exagero falar que “o mestrado está me deixando louco”. Depressão, ansiedade, insônia, desequilíbrio emocional… É só você olhar ao redor e ver que todos (ou quase todos) estão nessa situação. No entanto, assim como com qualquer problema, o melhor é prevenir e não remediar, até porque em casos extremos, como o do doutorando citado acima, não há mais remédio.

O que podemos fazer hoje pela saúde mental dos cientistas?

Muito se espera por uma ação que venha de cima, uma posição do governo, alguma medida da CAPES ou do CNPq. Essa esperança é algo cultural do brasileiro: “terceirizar” a preocupação e aguardar que alguém superior tome uma medida segura. A má notícia é que dificilmente isso vá acontecer (pelo menos não tão cedo). A boa notícia é que você não precisa esperar pelos órgãos do governo para tomar uma atitude.

O problema da má saúde mental dos cientistas é um fator que você enxerga diariamente ao seu redor e que está ao seu alcance e, em função disso, agir sobre ele é simples e exige apenas uma pequena mudança de postura.

Quantas vezes você já ouviu ou participou de um diálogo semelhante a este quando o dinheiro da bolsa não entra na conta até o dia certo?

  • Viu? A bolsa não entrou. Vai fazer o que pra te manter nesse mês?
  • Vou pedir ajuda pros meus pais, de novo, pra pagar o aluguel. E tu?
  • Ah, sei lá, vou vender meus órgãos, haha
  • Hahaha

[pausa dramática, sobem créditos da cena ao som de “Hello darkness my old friend”…]

Muita vezes, os problemas são tratados com ironia e isso ajuda a cavar mais fundo as feridas causadas por eles. O não pagamento das bolsas é um entre os vários problemas que acontecem ao longo de uma pós, juntamente com a falta de recursos para a pesquisa, os prazos abusivos, a pressão por dados e por publicações e tudo mais… Nesse emaranhado de desafios diários a enfrentar, grande parte dos pós-graduandos encontra nos colegas apenas alguém para quem se lamentar e com quem ironizar seus problemas.

pressao

E se houvesse uma mudança de postura para uma abordagem que oferecesse suporte ao colega?

E se, ao invés de colocar reclamação em cima de reclamação, os alunos de pós-graduação criassem grupos de apoio de forma independente?

Tenha certeza de que você tem ao seu lado uma rede extremamente poderosa de pessoas que sofrem com os mesmos problemas que você. Algumas delas já superaram isso e podem ter experiências ou dicas para compartilhar. Talvez você possa ajudar aquele colega que, tímido, nunca manifestou dificuldade em lidar com determinado desafio, mas que pode encontrar a solução em um ambiente acolhedor como um grupo de apoio.

Independente de como seja a sua realidade ou de como você irá fazer isso, comece essa mudança de postura aos poucos. Comece conversando com o colega ao lado… depois com o colega do outro laboratório e assim por diante. Trocas de ideias de forma individual podem dar início a uma grande rede de suporte. Dê um passo de cada vez e tenha certeza de que você não estará mais caminhando sozinho.

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